segunda-feira, 16 de janeiro de 2017

Mário Soares

segunda-feira, 16 de janeiro de 2017
Já muita coisa foi dita sobre Mário Soares. Muito faltará por contar. Até hoje não faltaram elogios e críticas. Não é de agora. Soares nunca foi consensual. A história vai-se escrevendo, não é uma ciência imediata, contrariamente ao imediatismo que as sociedades modernas exigem. Nem imediata nem mediata. Soares, por talvez ter vivido noutros tempos em que a política era uma arte nobre reservada aos grandes homens, nunca foi dado ao mediatismo e ao politicamente correto. A pressão dos media também não era a de hoje, principalmente nos anos em que Soares chamou a si a responsabilidade das lutas que tinham que ser travadas. E não foram tão poucas como isso. E não foram com certeza lutas menores. Foram as lutas pela liberdade e pela democracia. Que ele ganhou. 30 ou 40 anos depois já se pode fazer essa história. Lutou contra a iminência de, após o 25 de Abril, Portugal passar de uma ditadura de direita para uma ditadura de esquerda. Fê-lo, com coragem, na rua, correndo perigos. Fê-lo, com determinação, no exercício dos cargos que ocupou nos Governos Provisórios, na Assembleia Constituinte, nos Governos Constitucionais.
Soares foi o homem certo no tempo certo. Não há ninguém nos últimos 40 anos que mereça o lugar na história a que Soares tem direito. A legitimidade moral da sua luta contra o autoritarismo, a sua autoridade competente na afirmação da democracia pluralista e a sua resiliência foram um pilar da primavera da liberdade em Portugal.
Soares foi preso 13 vezes por desafiar e contestar a ditadura. Foi deportado. Foi exilado. Foi emigrante forçado. E retornou.
Soares nunca se escondeu e afirmou-se como político. Tomou decisões e defendeu opções. fez escolhas difíceis e assumiu-as. Escolheu lutar contra o fascismo e os saudosistas nunca lhe perdoaram, Escolheu a democracia liberal e a CEE e os comunistas nunca o suportaram. Escolheu a descolonização e os 'retornados' sempre o odiaram. Mas foram essas escolhas que definiram o país democrático e livre que somos hoje.
A descolonização continua a ser uma história mal contada. Quem critica Soares pela descolonização, muitas vezes com laivos de ódio, deve primeiro culpabilizar Salazar e Marcelo Caetano. Os verdadeiros culpados por uma guerra imoral e injusta que não deixou instrumentos para quem teve que resolver o problema pós guerra. Que não podia acabar com a guerra de imediato como se exigia, e ao mesmo tempo abandonar à sua sorte os portugueses que lá estavam, com a pressão externa dos EUA e da URSS. Ninguém naquela época teria feito melhor.
E muitos portugueses que regressaram, 'retornados', viviam bem com Deus e com o Diabo. Conviviam bem com a ocupação ilegal de países que diziam pertencer-lhes. E que não embarcaram de Portugal num navio e uma arma nas mãos para defender o que nunca foi nosso por direito. Esses são os que festejaram a morte de Soares. Esses, e os militaristas e comunistas que queriam instaurar uma ditadura do tipo soviético em Portugal. A história da descolonização ainda não está toda contada, mas já se vai fazendo. A história fará justiça a Soares, mesmo nesse aspecto.
Os velhos ódios regressaram com a morte de Soares, na pós-verdade das redes sociais, mas o país dos homens sensatos encheu uma semana de elogios.
Os velhos boatos, repetidos por novos ignorantes. Soares pediu a intervenção do FMI em 1977 e em 1983, mas comparar o contexto da época, pós ditadura de quase 50 anos e pós PREC, com o de 2011 é só para quem não sabe nem procura saber e reproduz o que ouve sem se preocupar com os factos.
A primeira intervenção, em 1977, aconteceu num período em que o país registava uma taxa de desemprego superior a sete por cento, os bens estavam racionados, a inflação era crescente chegando a alcançar os 20 por cento, havia forte conflitualidade política e o escudo estava desvalorizado.
A segunda intervenção, em 1983, dá-se durante o período do chamado bloco central, um Governo de aliança entre PS e PSD, liderado por Mário Soares. Foi quase um Governo de emergência nacional, criado por se considerar que seria a melhor forma de combater a grave situação económica do País.
Mesmo o pedido de adesão à CEE, e que visava dar consistência e desenvolvimento a um país atrasado no contexto europeu, foi uma luta travada por Soares contra a oposição radical de esquerda que preferia um país aliado aos interesses da URSS.
Soares foi intransigente na defesa da democracia. Soares mudou Portugal. E mudou-o para melhor.

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